Split Payment: o que é, impactos e quando começa a valer?

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O Split Payment é o “pagamento dividido” do novo IVA brasileiro (IBS + CBS): na hora em que a venda é paga, o valor do imposto é automaticamente separado e direcionado ao Fisco, e o fornecedor recebe apenas o líquido.

Essa mudança não cria tributo novo; altera o como se recolhe do modelo declaratório para o recolhimento na liquidação financeira da operação autorizado pela EC 132/2023 e disciplinado na LC 214/2025.

Para contadores e advogados de PMEs, o ponto-chave é entender as modalidades (inteligente on-line, inteligente off-line e simplificado), o cronograma (2026 em testes; 2027 início facultativo no B2B; obrigatoriedade por atos conjuntos da RFB e do CG-IBS) e o impacto imediato no caixa com o fim do “float” tributário.

O que é o Split Payment e como ele funciona na prática?

Split Payment é a segregação automática do IBS/CBS na liquidação financeira da venda. O mecanismo vincula a nota fiscal eletrônica à transação de pagamento e ordena a separação do tributo pelo prestador de serviço de pagamento ou arranjo (PIX, cartão, boleto, TED), creditando o líquido ao fornecedor e remetendo o imposto aos cofres públicos. A LC 214/2025 define a extinção do débito na liquidação e prevê procedimentos para a vinculação fiscal-financeira.

Na prática, o Brasil adotará um desenho gradual e tecnológico sob coordenação do Ministério da Fazenda, Receita Federal e Comitê Gestor do IBS (CG-IBS), com apoio do Serpro, que vem detalhando a plataforma de apuração assistida e o ecossistema de integração.

Leia mais em: Reforma Tributária: o que muda e cronograma tributário até 2033.

Como a liquidação financeira do imposto ocorre no momento da venda?

No exato instante em que o pagamento é liquidado, o sistema identifica o débito de IBS/CBS destacado no documento fiscal, segrega o valor e o recolhe para a União (CBS) e para o CG-IBS (IBS). O fornecedor recebe o valor líquido, sem que o imposto transite no seu caixa uma mudança de paradigma operacional.

Em operações parceladas, a segregação é proporcional em cada parcela, na data em que cada uma for liquidada, conforme regra expressa da LC 214/2025.

Por que o Split Payment é considerado a maior revolução no fluxo de caixa?

Porque elimina o “capital de giro tributário” usado por muitas empresas entre o recebimento e o vencimento do imposto. Com a retenção automática, a liquidez imediata diminui e a tesouraria passa a trabalhar com entradas líquidas (sem IBS/CBS).

Benefícios sistêmicos combate à inadimplência e à fraude, previsibilidade e rastreabilidade são apontados pelo Ministério da Fazenda e por análises setoriais. Mas o preço é disciplina de caixa e parametrização robusta nos ERPs e meios de pagamento.

Saiba também: XML na Reforma Tributária: o que muda? 

Qual a diferença entre o Split inteligente e o simplificado?

  • Split inteligente (on-line): consulta em tempo real os créditos tributários do fornecedor e retém só o valor líquido devido. É o alvo tecnológico ideal.
  • Split inteligente (off-line): retém integralmente no momento da liquidação e ajusta em até D+3 (devolvendo excedentes após checagem de créditos).
  • Split simplificado (varejo/B2C): aplica um percentual estimado e equaliza na apuração, estratégia pensada para alta pulverização de itens.

Como o sistema bancário identifica o valor exato do imposto na nota fiscal?

Por vinculação obrigatória entre o documento fiscal eletrônico e a transação de pagamento. Antes de disponibilizar os recursos, o arranjo consulta o sistema da RFB/CG-IBS sobre quanto segregar e para onde remeter. Se a consulta falhar, a lei manda segregar pelo valor informado no documento e ajustar depois.

Veja também: IBS e CBS na escrituração contábil: o que muda para micro e pequenas empresas. 

Quando o Split Payment começa a ser obrigatório para as empresas?

Receita e do CG-IBS. O PLP 108/2024, convertido em LC 227/2026, finalizou a governança do IBS e da fiscalização conjunta, pré-condições para escalar o sistema.

De forma prática e pública, a Fazenda anunciou 2026 como ano educativo (testes, tolerância e calibragem) e 2027 como início facultativo no B2B, com obrigatoriedade progressiva condicionada à maturidade tecnológica do mercado. Datas exatas de cada fase saem por atos infralegais.

O que esperar da fase de testes e projetos piloto em 2026?

  • Alíquotas-teste (0,9% CBS e 0,1% IBS) com caráter informativo para calibrar sistemas e apuração assistida, sem efeito financeiro desde que cumpridas as obrigações.
  • Pilotos e ambiente de produção evoluindo com empresas e instituições de pagamento, sob coordenação de RFB/Serpro. Foco: vinculação NF-e ↔ pagamento e estabilidade de APIs.

Confira depois: Modelo de nota fiscal com IBS e CBS: o que muda na emissão dos novos tributos.

Por que o ano de 2027 é o marco para a obrigatoriedade no mercado B2B?

Autoridades da Receita indicaram publicamente que 2027 inicia com adesão facultativa no B2B, avançando para obrigatoriedade quando a grande maioria dos arranjos estiver pronta, e expansão posterior ao B2C. Trata-se de faseamento técnico para reduzir risco sistêmico.

Como o cronograma de transição protege a adaptação dos sistemas bancários?

O Ministério da Fazenda vem reforçando que a implementação será gradual e com mínima interferência nas práticas comerciais, priorizando a estabilidade dos meios de pagamento e isonomia entre arranjos. A consulta prévia e o ajuste posterior (D+3) são salvaguardas operacionais.

Quais os riscos de ignorar a integração tecnológica antes do prazo final?

  • Retenções indevidas por divergência de dados fiscais/financeiros.
  • Conciliações travadas e suspensão de liquidação automática.
  • Custos de correção (chargebacks técnicos) e impacto em caixa.

Esses riscos são citados em análises de mercado e pela própria Fazenda ao defender a preparação antecipada.

Saiba também: Como mapear produtos e serviços para a Reforma Tributária sem comprometer a operação.

Quais são os principais impactos no fluxo de caixa do microempreendedor?

O micro e pequeno negócio sente primeiro, porque o “float” (valor do imposto entre a venda e o recolhimento) deixa de existir. A liquidez “do dia seguinte” cai, e compras de reposição passam a disputar espaço com despesas fixas sem aquele colchão temporário.

Como a perda do float tributário afeta a sua reserva de emergência?

Antes: o imposto “dormia” no caixa até o vencimento.

Depois: o tributo sai na hora, reduzindo o saldo médio diário e esvaziando a reserva se ela dependia daquele valor. Grandes consultorias e imprensa econômica vêm alertando para a revisão do colchão de liquidez.

De que maneira a retenção imediata do imposto prejudica a reposição de estoque?

Compras à vista e giros curtos ficam mais sensíveis, pois cada venda liquida tributo imediatamente. Sem capital de giro reforçado, o lojista pode postergar compra ou aceitar prazo pior do fornecedor. O Ministério da Fazenda recomenda calibrar prazos e estoques durante a transição.

Leia depois: Reforma Tributária e NF-e: o que muda na emissão de notas fiscais até 2033. 

Como planejar o capital de giro para suportar a ausência do diferimento fiscal?

  1. Refaça o fluxo de caixa considerando entradas líquidas (sem IBS/CBS).
  2. Renegocie prazos com adquirentes/PSPs e fornecedores.
  3. Reforce a reserva (alvo em dias de caixa) e avalie linhas rotativas.
  4. Simule parcelados (segregação por parcela) antes de campanhas.
    As simulações devem espelhar a regra de segregação em cada parcela.

Por que a inadimplência tributária será tecnicamente eliminada no varejo?

Porque o imposto não depende mais do pagamento “a posteriori” é extinto na liquidação. A rastreabilidade entre NF-e ↔ transação reduz espaço para notas frias, créditos indevidos e calotes de recolhimento, conforme defendido pelo MF e por análises especializadas.

Veja também: Como ficará o crédito de imposto na Reforma Tributária?   

Como o Split Payment garante o direito ao crédito para o comprador?

A não cumulatividade plena do IBS/CBS vem com apuração assistida e rastreável. A apropriação do crédito fica vinculada à extinção do débito na etapa anterior, isto é, há crédito quando houve pagamento efetivo do tributo na cadeia, algo que o split viabiliza de forma síncrona.

Por que o crédito tributário só é liberado mediante o pagamento síncrono?

A lógica é “crédito bom é crédito pago”: o sistema usa a prova da liquidação para permitir a compensação integral. Sem liquidação, o crédito não se libera, mecanismo que fecha brechas de fraudes de crédito. Esse desenho aparece nos materiais técnicos do MF e na doutrina sobre neutralidade e não cumulatividade.

Como a rastreabilidade financeira evita fraudes na cadeia do IVA Dual?

Cada operação passa a ter um rastro fiscal-financeiro único (NF-e ↔ pagamento). Com isso, “notas frias” e montagens de crédito tendem a desaparecer ou ser detectadas automaticamente pela reconciliação sistêmica. Experiências internacionais (ex.: Polônia no IVA) reforçam o valor desse controle.

Confira depois: Apuração Assistida na Reforma Tributária: como a rastreabilidade fiscal afeta o caixa das empresas?  

De que forma o comprador pode monitorar o recolhimento feito pelo vendedor?

Pelos extratos de apuração assistida e dashboards que o CG-IBS/RFB disponibilizarão. A tendência é que um ambiente único mostre débitos, créditos e liquidações por documento, aumentando a segurança jurídica em eventuais auditorias.

O que acontece se houver divergência entre o valor da nota e a retenção do banco?

O procedimento off-line prevê segregação pelo valor informado e ajuste posterior (D+3) após conferência dos créditos/débitos. Divergências devem ser sinalizadas nos logs do arranjo e corrigidas pela apuração assistida.

Se aprofunde no tema: Simples Nacional na transição tributária: riscos de uma má gestão.

Como preparar a tecnologia da sua empresa para o novo modelo de cobrança?

Sem integração, não há Split Payment saudável. O Serpro e a SEART (MF) vêm antecipando que a reforma será “muito tecnológica”, com portal único, vinculação automática débito ↔ DF-e e apuração pré-preenchida. Empresas precisam testar cedo com seus fornecedores de ERP, gateways e bancos.

Por que o seu ERP precisa conversar em tempo real com os meios de pagamento?

Porque a segregação acontece na liquidação. Se o ERP não expõe/consome as informações certas (CNPJ, chave da NF-e, base, alíquota, exceções, benefícios) no momento do pagamento, o arranjo não consegue segregar corretamente. APIs confiáveis e logs completos são mandatórios.

Como evitar retenções indevidas por falhas na parametrização de alíquotas?

  1. Mapeie NCM/NBS/serviços e cenários especiais (cesta básica, seletivo, regimes diferenciados).
  2. Versione as alíquotas e implemente validações antes de autorizar a liquidação.
  3. Teste regressivo a cada atualização (ERP/PSP).

Qual a importância das APIs de integração entre o fiscal e o financeiro?

APIs robustas garantem latência baixa e consistência de dados entre fiscal (NF-e/DF-e) e financeiro (liquidação). Sem isso, o split degrada, gerando retenções maiores e pendências que corroem o caixa. O governo aponta para uma arquitetura de alto volume, com capacidade superior a dezenas de bilhões de operações/ano.

Leia também: Reforma Tributária e digitalização: como a tecnologia pode ajudar na  conformidade.

Conclusão: a preparação financeira como diferencial competitivo em 2027

O Split Payment não é só tema fiscal, é tema de caixa e sobrevivência. Quem simular entradas líquidas, ajustar prazos, qualificar seu ERP e educar clientes/fornecedores ainda em 2026, entrará em 2027 com vantagem real, principalmente no B2B. O mecanismo reduz a inadimplência sistêmica, mas cobra disciplina financeira.

Perguntas frequentes sobre o Split Payment e a Reforma Tributária

1. O Split Payment será aplicado em vendas feitas em dinheiro ou boleto?

Boleto está no escopo de pagamentos eletrônicos e participa do split. Dinheiro físico não é “arranjo eletrônico”, mas a regulamentação poderá disciplinar formas de vinculação e comprovação para garantir o mesmo efeito de segregação/credenciamento do crédito. Os atos conjuntos RFB/CG-IBS delimitarão os detalhes.

2. As empresas do Simples Nacional estão sujeitas ao pagamento dividido?

A LC 214/2025 prevê o split como mecanismo geral do IVA dual; tratamentos específicos poderão ser ajustados na regulamentação e nas regras de integração com o Simples. Adoção e cronograma dependem dos atos infralegais. A recomendação é mapear impactos no caixa mesmo para optantes do Simples, dada a centralidade do split no novo sistema.

3. O que acontece se o sistema de pagamento do banco falhar no momento da venda?

Aplica-se o procedimento de contingência: segregar pelo valor do documento se a consulta não estiver disponível e ajustar em D+3 quando os créditos forem reconciliados. Logs detalhados e eventos de fallback são essenciais para auditoria e correção.

4. O Split Payment aumenta a carga tributária total do meu negócio?

Não. O Split muda a forma de recolhimento, não a base legal da carga. A EC 132 e a LC 214 desenham neutralidade e não cumulatividade, com alíquota-padrão calibrada e regimes específicos o efeito em cada empresa dependerá de créditos, mix de produtos/serviços e regimes.

5. Como o microempreendedor pode mitigar o choque inicial de liquidez?

  • Ajuste preços e prazos pensando no valor líquido que entrará.
  • Reforce reserva (dias de caixa) e negocie com fornecedores.
  • Revise parcelamentos (lembre-se: segregação por parcela).
  • Teste o ERP e a integração com adquirentes/PSPs antes de 2027.

Rafael Pousas

Rafael Pousas é Contador e Especialista em Consultoria Tributária, formado em Ciências Contábeis pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Atua na área tributária com foco em oferecer soluções seguras e eficientes para empresas, garantindo conformidade legal e apoio estratégico na gestão fiscal.

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